Artistas, eis a nossa estrada.

quarta-feira, agosto 4 4:53 AM postado por debs
De certa forma, ainda não peguei o espírito da coisa. Já fiz algumas aulas de teatro, e as fiz durante um ano. Aulas de dança, alguns anos a mais de experiência, inclusive de dança contemporânea e uma pitadinha ínfima de dois meses de balé. Expressão corporal, relaxamento, festivais, grupos independentes, de tudo isso já participei ou tudo isso já fiz. Criar coreografias independentes a sua (minha) moda para apresentações e ensiná-las a grupos, escrever contos, crônicas, 'séries' em grande número, também já ousei. Criar projetos que nunca saíram do papel e que já saíram também, dar aulas para crianças, possuir uma certa amplitude em bagagem literária e em conhecimento sobre o assunto, protagonizar e ser coadjuvante, e, o mais arriscado, desafiar uma direção indireta de uma peça importante... fazem parte do meu currículo íntimo. Estava satisfeita até passar no vestibular para Licenciatura em Teatro. Desde que conheci meus colegas de curso, vi: eu não fiz praticamente nada! Quase todos eles se deram mais à arte que o dobro de mim. Vejo como sou pequena, como sou ainda tímida se comparada a eles, como não sei criar como julgava saber. E o que mais me doeu foi chegar à conclusão de que preciso ainda nascer como artista para depois amadurecer como tal.
Uma longa caminhada na qual derramarei suor e sangue, sentirei dor no corpo e na alma, terei de transformar o medo em coragem e nunca desistir. Para, no ápice ou no final de tudo, mesmo que eu seja uma grande atriz/escritora/dançarina/cantora - com ressalva/ diretora/professora não seja suficientemente recompensada e valorizada. É claro que a maioria do sacrifício tem como principal reconhecedor cada um de nós, e que é isso que nos traz felicidade, que nos faz ter orgulho de quem somos. Mas é certo que é fundamental ver as lágrimas e sorrisos do público como gestos de que trabalhamos bem. Afinal, queremos emocionar para nos sentir emocionados. Mas o que fazer se estamos no Brasil?!
E não é determinismo eu chamar os brasileiros de leigos e desinteressados pela arte. Porém, quem não concorda quando digo que o valor que nosso povo dá a ela não é tão grande assim?
Quantos sacrifícios enfrentamos para nos aperfeiçoar a troco de que? De ingressos muito baratos para ter alguém na plateia, de preconceito com a nossa profissão?
É certo que médicos salvam vidas, que advogados tentam manter a ordem e os direitos dos cidadãos, que os engenheiros projetam ótimas ideias. Sim, é certo que tudo isso se tornou fundamental à população e tem que ter o seu valor. Não questiono isso, mas admito que sinto certa inveja, porque, afinal, emoção é difícil passar e, sobretudo, tem gigante importância e necessidade para que os corações das pessoas não virem pedra. De que adianta a saúde se a alma for podre? A lei seguida sem o gosto de viver? De que adiantam seus carros, computadores, casas e celulares se tudo isso constitui a tua rotina e não foges nunca dela?
Nós estamos aqui, na luta. Antes, para nos aperfeiçoar e nos tornar bons profissionais da emoção e do ensino, depois, para agradar o público. E sempre na espera de que um dia sejamos reconhecidos. Enquanto isso não vem, eu fico aqui tentando. E lendo esse texto sincero vejo que, ao menos, já estou começando a pegar o espítiro da coisa.

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